Psicologia do Desenvolvimento


segundo Erikson

Erikson, no livro “Infância e Sociedade”, apresenta três contribuições principais ao estudo do ego humano.  Primeiro, sugeriu que, lado a lado com os estágios de desenvolvimento psicossocial descritos por Freud (oral, anal, fálico e genital), havia estágios psicossociais de desenvolvimento do ego, nos quais o indivíduo tinha de fixar novas orientações básicas para si e para seu mundo social.  Em segundo lugar, afirmou que o desenvolvimento da personalidade não para na adolescência, mas continua através de todo o ciclo vital.  E, finalmente, declarou que cada estágio tem ao mesmo tempo um componente positivo e outro negativo.

            Examinando-se o esquema dos estágios de vida pode-se compreender muita coisa a respeito dessas contribuições, bem como sobre o modo de pensar de Erikson. Ele identificou cinco estágios na fase de desenvolvimento de uma criança e adolescente, no decorrer da vida humana, em  que cada um dos quais se torna uma nova dimensão de “interação social”, que quer dizer, uma nova dimensão na interação da pessoa consigo mesma e/ou com seu ambiente social.

 

            1ª - CONFIANÇA x DESCONFIANÇA  -  O primeiro estágio do esquema erikssoniano corresponde ao estágio oral da teoria psicanalítica clássica e, em geral, transcorre durante o primeiro ano de vida.  No entender de Erikson, a nova dimensão social que emerge, durante este período, é de confiança básica, num extremo e a desconfiança, no outro.

            O grau em que a criança vem a confiar no mundo, nas demais pessoas e em si própria, depende em grande parte da qualidade dos cuidados que recebe.  A criancinha cujas necessidades são satisfeitas logo que aparecem, cujos desconfortos são prontamente atendidos, que é acariciada, com a qual se brinca e conversa, desenvolve uma noção do mundo, como sendo um lugar seguro de estar e, das pessoas, como prestativas e dignas de confiança.  Quando, porém, os cuidados são irregulares, insuficientes e com a marca da rejeição, promove, a desconfiança básica, uma atitude de medo e suspeita, de parte da criancinha, quanto ao mundo, em geral e às pessoas, em particular, que permanecerá durante os estágios posteriores de desenvolvimento.

            Cabe dizer, nesta altura, que o problema básico de confiança versus desconfiança não se resolve de uma vez e para sempre durante o primeiro ano de vida, pois torna a reaparecer em cada um dos sucessivos estágios do desenvolvimento.  E, nisso, tanto há esperança como perigo.  A criança que entra na escola com a idéia de desconfiança pode vir a confiar em determinado professor que se dê ao trabalho de tornar-se merecedor dessa confiança e, com esta segunda oportunidade, a criança supera a desconfiança inicial.  De outro lado, a criança que atravessa a infância com uma noção vital de confiança, ainda poderá ter seu senso de desconfiança ativado em estágio posterior da vida se. Por exemplo, seus pais se divorciarem ou separarem em circunstâncias desagradáveis.

 

OBTENÇÃO DO EQUILÍBRIO

 

            2ª -  AUTONOMIA x DÚVIDA -  O segundo estágio abrange o segundo e o terceiro anos de vida, o período que na teoria freudiana é chamado de estágio anal.  Erikson entende que neste período surge a autonomia, desenvolvimento esse que se baseia nas novas habilidades motora e mental da criança.  Neste estágio, a criança não só pode andar mas, também, trepar, abrir e fechar, cair, empurrar, puxar, segurar e soltar.  A criança pequena orgulha-se dessas novas realizações e quer fazer tudo sozinha, quer tirar o papel de uma bala, tirar a vitamina do vidro ou dar descarga na privada.  Se os pais reconhecem a necessidade de a criança fazer tudo aquilo de que é capaz, por conta própria e quando quiser, então ela desenvolve o senso de que pode controlar seus músculos, seus impulsos, a si própria e, o que não é de pouca importância, seu meio ambiente:  é o sentido da autonomia.

            Quando, porém, os que por ela zelam, mostram-se impacientes e fazem pela criança o que ela é capaz de fazer sozinha, estarão reforçando o seu senso de vergonha e dúvida.  É certo que todos os pais por vezes são ásperos com os filhos e as crianças são rijas o bastante para desculpar tais lapsos.  Somente quando os cuidados são seguidamente superprotetores e as reprimendas pelos “acidentes” (sejam urinar, derramar ou quebrar coisas) são ríspidas e irrefletidas é que a criança cria um exagerado senso de vergonha em relação a outras pessoas e um exagerado senso de dúvida em relação a sua capacidade de controlar o mundo e a si própria.

            Se a criança sai deste estágio com menos autonomia do que vergonha ou dúvida, isto distorcerá negativamente suas tentativas posteriores de conquistar autonomia na adolescência e maturidade.  A criança que, ao contrário passa por essa fase como senso de autonomia superando nitidamente os sentimentos de vergonha e de dúvida, estará bem preparada para ser autônoma em etapas posteriores do ciclo da vida.  Mais uma vez, porém, o equilíbrio entre autonomia e vergonha e dúvida, estabelecido durante este período, pode ser alterado em direção positiva ou negativa, por acontecimentos posteriores.

 

            3ª -  INICIATIVA x CULPA  -   Nesse terceiro estágio (em geral nas idades de quatro a cinco anos), a criança em idade pré-escolar é, praticamente, dona de seu corpo e é capaz de andar de velocípede, correr, cortar e bater.  Pode, pois, iniciar atividades motoras de vários tipos, por conta própria e não mais responde apenas às ações de outras crianças ou, simplesmente, as imita.  O mesmo prevalece quanto à linguagem e atividades imaginárias.  Assim sendo, Erikson afirma que a dimensão social que surge neste estágio tem em um dos pólos a iniciativa e, no outro, a culpa.

            O fato de se a criança vai sair deste estágio com senso de iniciativa superando, em muito, o senso de culpa, depende em grande parte de como seus pais respondem a essas atividades de iniciativa própria.  Crianças que têm muita liberdade e oportunidade de iniciar brincadeiras motoras como correr, andar de bicicleta, patinar, escorregar, disputar e lutar, têm reforçado o seu senso de iniciativa. E a iniciativa é reforçada, ainda, quanto os pais respondem, às perguntas das crianças (iniciativa intelectual) e não se esquivam nem inibem a atividade imaginária ou a brincadeira.  De outro lado, se os pais fazem a criança sentir que sua atividade motora é má, que suas perguntas aborrecem e que suas brincadeiras são tolas e estúpidas, neste caso fomentam um senso de culpa que ultrapassa as atividades da iniciativa própria, em geral, e que prevalecerá durante os estágios posteriores da vida.

 

              -  INDÚSTRIA  x  INFERIORIDADE   -   O quarto estágio é o período etário dos seis aos onze anos.  São anos da escola primária (descritos na psicanálise clássica como fase de latência).  É o tempo em que o amor da criança pelo pai ou pela mãe (do sexo oposto ao seu) e a rivalidade com o do mesmo sexo, ficam em repouso.  É, também, o período em que a criança torna-se capaz de raciocínio dedutivo e de brincar e aprender por regras.  Somente neste período, por exemplo, que ela pode jogar bolas de gude, damas e outros jogos em que “cada um tem sua vez” e que exigem obediência  às regras.  Erikson, afirma que, a dimensão psicossocial que emerge durante este período, tem, num extremo, o bom senso de indústria e, no outro, o senso de inferioridade.

            A palavra indústria escreve esplendidamente um tema dominante neste período de escola primária durante o qual predomina o interesse pela maneira como as coisas são feitas, como funcionam e para que servem.   É a idade de Robinson Crusoé, no sentido em que o entusiasmo e o pormenor minucioso com que Crusoé  descreve suas atividades agradam ao próprio e nascente senso de indústria infantil.  Quando as crianças são estimuladas em seus esforços por fazer, realizar ou, ainda, construir coisas práticas (seja construir cabanas no alto de árvores ou modelos de aviões ou, ainda,  cozinhar, fazer doces etc.), quando têm permissão para terminar seus produtos e são elogiadas e recompensadas pelos resultados, então o senso de indústria é promovido.  Ao contrário, os pais que consideram os esforços dos filhos, no sentido de fazer e realizar, como simples “travessuras” ou como causa de “bagunça”, ajudam a estimular o senso de inferioridade, na criança.

            Durante os anos da escola primária, contudo, o mundo da criança abrange mais do que o lar.  Nesta altura, instituições sociais outras, além da família, vêm a desempenhar um papel importante na crise de desenvolvimento do indivíduo.  (Neste ponto,  Erikson  introduz mais um avanço na teoria psicanalítica, que até aqui, se preocupava apenas com os efeitos do comportamento dos pais, sobre o desenvolvimento da criança).  As experiências escolares da criança contribuem de forma muito importante para o seu equilíbrio entre indústria e inferioridade. Por exemplo, criança com Q.I. de 80 a 90, portanto abaixo da média, pode sofrer uma experiência traumática, na escola, mesmo quando seu senso de indústria é recompensado e estimulada, em casa.  Ela é uma criança “inteligente demais” para ficar nas turmas especiais mas, ao mesmo tempo, é “lenta demais” para competir com as crianças de capacidade intelectual média.   Conseqüentemente, passa por constantes fracassos nos deveres escolares, que reforçam seu senso de inferioridade.

            Por outro lado, a criança que tenha tido o seu senso de indústria desestimulado no lar, poderá tê-lo revitalizado na escola, por obra de um professor sensível e interessado.   Por conseguinte, se a criança irá formar um senso de indústria ou inferioridade, já não depende unicamente dos cuidados zelosos dos pais, mas das ações e iniciativas, também, dos outros adultos que interagem com ela.

 

A CRISE DE IDENTIDADE DO ADOLESCENTE

 

            5ª -  IDENTIDADE  x  CONFUSÃO DE PAPÉIS  -  Quando a criança passa à adolescência (mais ou menos na idade de 12 aos 18 anos), segundo a teoria psicanalítica tradicional, ocorre um re-despertar do problema do “romance familiar”da primeira infância.  Sua maneira  de resolver este problema é procurar e encontrar um parceiro romântico de sua própria geração.   Embora Erikson não rejeite este aspecto da adolescência, chama atenção para o fato de que há outros problemas.  O adolescente, tanto mental como fisiologicamente, e, além dos novos sentimentos, sensações e desejos que experimenta, em decorrência de modificações orgânicas, desenvolve uma infinidade de novos meios de entender o mundo e de pensar a respeito dele.  Entre outras coisas, os adolescentes podem hoje imaginar a respeito de como pensam as outras pessoas e conjeturar sobre o que estas pessoas pensam a seu respeito.  Ao mesmo tempo, o adolescente pode imaginar famílias, religiões e sociedades ideais com as quais compara as famílias, religiões e sociedades imperfeitas, de sua experiência.  E, finalmente, o adolescente torna-se capaz de construir, ou adotar, teorias e filosofias que constituirão um todo harmonioso de todos os aspectos conflitantes da sociedade.  Resumindo, o adolescente é um idealista impaciente que acredita ser tão fácil realizar um ideal, como é imaginá-lo.

            Erikson crê que a nova dimensão interpessoal que emerge durante este período tem relação com um senso de identidade do ego, na extremidade positiva e, com um senso de confusão de papéis, na extremidade negativa.  Isto quer dizer que dada a recém descoberta capacidade integradora  do adolescente, sua tarefa é reunir todas as coisas que tenha aprendido sobre si mesmo como filho, como aluno, atleta, amigo, escoteiro, vendedor de jornais etc. e que apresente continuidade com o passado, enquanto se prepara para o futuro.  No grau em que um jovem consiga ser bem sucedido neste esforço, atingirá um senso de identidade psicossocial, um senso de quem ele é, de onde está e para onde vai.

            Em contraste com os principais estágios, em que os pais desempenham um papel mais ou menos direto na determinação do resultado da crise de desenvolvimento, sua influência durante este estágio é muito mais indireta.   Se a jovem pessoa, graças aos pais atinge a adolescência com uma noção vital de confiança, de autonomia, de iniciativa e indústria, então serão muito maiores suas possibilidades de alcançar um significativo senso de identidade do ego.   O oposto, naturalmente, vale para o jovem que entra na adolescência com muita desconfiança, vergonha, dúvida, culpa e inferioridade.   Por conseguinte, começa no berço a preparação para uma adolescência bem sucedida e a obtenção de um senso de identidade psicossocial.

            Quando, seja devido a uma infância infeliz ou por circunstâncias sociais difíceis, a jovem pessoa não consegue formar um senso de identidade pessoal, apresenta certo vulto de confusões de papéis  - ou seja – um senso de não saber o que se é, nem daquilo de que se faz parte, nem de com quem se está.   Esta confusão é um sintoma freqüente entre jovens delinqüentes.   As meninas adolescentes promíscuas, muitas vezes, parecem ter noção fragmentada da identidade pessoal, pela qual entendem o seu comportamento sexual, como descontínuo com os seus sistemas de valores e inteligência.   Alguns jovens procuram uma “identidade negativa”, uma identidade  oposta a que lhes foi atribuída pela família e pelos amigos.   Possuir uma identidade como “delinqüente”, às vezes, pode ser preferível a não ter qualquer identidade.

            O fracasso no estabelecimento de um senso claro de identidade pessoal na adolescência não garante fracasso perpétuo.   Por outro lado, a pessoa que atinge um senso prático de identidade do ego, na adolescência, necessariamente encontrará desafios e ameaças, a esta identidade, a medida que avança na vida.   Erikson, talvez mais do que qualquer outro teórico da personalidade, tem enfatizado que a vida é uma mudança constante e que resolver problemas, em qualquer estágio determinado da vida, não constitui garantia contra a ocorrência de novos problemas, nem contra a descoberta de novas soluções para problemas anteriores, em estágio subseqüentes.